terça-feira, 12 de setembro de 2017

Roda viva

No boletim de notícias, o médico informa a família o quadro de saúde do paciente, resultados de exames, planejamento terapêutico e esclarece dúvidas. Todas as atenções, naquele instante, são voltadas a comunicação do que se passa com o paciente à sua família.
Chegamos aquele Box para dar notícias ao esposo, em torno dos 75 anos, sobre a mulher infartada aos 69.
Mas ali, o que nos chama a atenção, não é a nossa paciente, já assistida, mas o familiar. Um “caroço” de grande extensão ocupava boa parte de um lado da sua face. O médico com semblante preocupado, alertou-lhe que aquilo também exigia cuidado.
O homem com seu jeito matuto, simples e com a garra de quem não desiste fácil das coisas, contou-nos que há 02 anos buscava formas para tratar aquilo que não doía, só crescia. Mas até então, sem sucesso.
Não sei se sabem, mas existe uma lei que na teoria garante que o paciente diagnosticado com câncer inicie seu tratamento no SUS em no máximo 60 dias - Lei 12.732. Há 02 anos, o nosso familiar tentava iniciar o seu.
A dificuldade de assistência à saúde em um município pobre e violento próximo a capital, não permitiram que ele, apesar das inúmeras idas e vindas ao Posto de Saúde e Upa, conseguisse um encaminhamento a um serviço especializado. Na teoria tudo se acomoda, Srs. Governantes!
E nesse tempo todo, o que de relevante lhe aconteceu foi o infarto da esposa.
Notícia dada, alerta feito pelo médico e com outros familiares e pacientes aguardando notícias, seguimos.
Sexta-feira, fim do horário de visitas, quase fim de plantão ... familiar no pensamento.
E o esposo da paciente? E aquele tumor? Há 2 anos? O incômodo ganha corpo... Compreendo que tamanha inquietude, contagia também meus colegas de trabalho! E logo, estamos todos juntos a pensar... E o pensamento ganha uma energia tal, que a roda travada há 02 anos, começa a girar.
“Roda mundo, roda-gigante. Rodamoinho, roda pião. O tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração” (Chico Buarque)
02 anos... Tempo... Tempo que produz história, que nos constitui e que, com sorte, nos leva a bons encontros!
A minha história levou-me, já numa sexta à noite, a mobilizar uma amiga psicóloga num outro hospital. Ela acionou a responsável pelo acolhimento do seu hospital, que impulsionou um oncologista a examinar o nosso familiar e produzir para eles os papéis necessários para o Sistema enfim sair da teoria!
Ele mais que ligeiro levou os documentos a instituição de saúde indicada. E emocionado ligou para esposa já em nossa enfermaria, para dizer que saía de lá, praticamente, com data marcada para iniciar o tratamento oncológico. Ela, agradecida, na tarde de 3ª feira, chamou-me para dizer...
“ Que vida estranha, cheia de voltas... Foi preciso que o meu coração adoecesse para que ele encontrasse o tratamento. Você não tem ideia de como estamos felizes...”
“Não sei se foi preciso que o coração da Sra. adoecesse para isso acontecer, sei que foi preciso que cuidássemos também dele, para que a roda se colocasse a girar...”
“Roda mundo, roda-gigante. Rodamoinho, roda pião. O tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração”.(Chico Buarque)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Sr. Luís

O Sr. Luís foi alcoolista pesado por mais de 40 anos, de uma condição social muito precária, teve ou por falta de recursos financeiros ou culturais, dificuldade de acesso aos serviços públicos assistências, principalmente, aos de saúde.

O uso abusivo do álcool causou-lhe sequelas, entre elas - neurológicas. A mais notável era a dificuldade de deambular/marchar como nomeiam nossos colegas da fisioterapia. Para nós, leigos, andar mesmo!

Os dentes da frente do Sr. Luís não existiam, e os restantes estavam num estado inclassificável.

Esse Sr. chegou ao CTI por causa de uma angina (dor no peito que pode ser preditiva de um infarto). Para diagnosticá-lo, o cateterismo, um procedimento (exame) utilizado para avaliar a presença ou não de obstruções nas artérias do coração, precisava ser feito.  E a partir deste, a definição da melhor opção de tratamento para o seu caso.

Agora a nossa história:

Numa tarde qualquer, a Enfermagem sinaliza a Psicologia que o Sr. Luís parecia depressivo, passava a maior parte do dia deitado, em silêncio, de olhos fechados e pouco interagia com quem o cercava.

Passamos então, dia-a-dia a ir ao seu encontro. Queríamos saber quem é, o que gostava, sua história familiar, de trabalho, de vida.

Concomitantemente, o Fisioterapeuta, passou a incentivá-lo a se levantar da cama, e segurando-lhe as duas mãos, o encorajava a se mover. Primeiro ao redor do leito, depois pelos corredores do CTI. E entre um passo e outro, ia calmamente lhe “ensinando” que o ato de caminhar ficava menos difícil se, se lembrasse que também era preciso dobrar o joelho.

Todos da equipe que ali estavam, presenciavam com contentamento cada centímetro percorrido: Pé ante pé.

Ainda havia mais....

Para a realização do exame cardíaco (o cateterismo), era necessário que os dentes do Sr. Luís fossem tratados.

Bem, não sei se sabem, mas a endocardite (doença grave e infecciosa do coração) tem como uma de suas causas, a migração de bactérias presentes na boca para partes do músculo cardíaco! Vejam aí a importância da prevenção odontológica! E no estado em que os dentes do paciente se encontravam, uma limpeza bucal era-lhe imprescindível.

A dentista é chamada e muito dedicada faz a raspagem das impurezas, higieniza e zela por aquela boca que nunca havia sido cuidada por qualquer colega seu, e sejamos justos, nem pelo próprio paciente.

Agora sim, com tudo acertado, os procedimentos cardíacos seguiram: Cate e Angioplastia (desobstrução das artérias).

Vencido o período de observação, a alta do CTI foi concluída e a caminho da enfermaria, eis que o Sr. Luís traz a mim uma questão:

- Moça, qual o nome da sua área?

- Psicologia.

- Ah! Quando eu sair do hospital, vou procurar essa sua área para contar minha história; e a daquele moço que me ensinou a andar, para ajudarem a me equilibrar e ficar firme. E tem a da dentista, né?! Quero colocar os dentes da frente, porque com eles vou poder rir e conversar com os outros de olhos abertos -  sempre tive vergonha deles!

Vou sair daqui, procurar trabalho e lembrar de vocês todos os dias! Vocês não desistiram de mim, e por causa disso, não vou desistir também!

terça-feira, 21 de março de 2017

Alzheimer


Entre um boletim médico e outro, uma parada no box do Sr. João.


- Oi Sr. João, tudo bem? Deixe-me perguntar: O Sr. gosta de TV? Posso tentar arrumar uma se quiser.

- Eu até gosto, mas só quando tenho tempo. Agora não estou com tempo não!

- Ah é? – O que o Sr. anda fazendo aqui nesse quarto que tem o deixado tão ocupado? - Questiono espantada aquele Senhor de 64 anos, institucionalizado, internado há mais de 02 semanas na UTI, num quadro de insuficiência cardíaca e Alzheimer em estágio moderado.

- Sabe minha filha, de uns tempos pra cá, minhas ideias vivem emprestadas! Estou usando todo o meu tempo aqui pra descobrir quem tirou elas de mim! Agora, por exemplo, não posso conversar, estou tentando lembrar para quem emprestei minhas ideias. Quando eu achar, vou te chamar, aí vamos poder conversar! Nesse quarto estou que nem peça de museu, mas museu tem a ver com história .... História tem a ver com valor.... Valor tem a ver com o que eu sou... Mas quem eu sou mesmo?

- Ah, Sr. João, o Sr é um guerreiro, que deu a mim a mais lúcida e incrível definição do que somos nós frente ao adoecimento!

Ao Sr., minha admiração!

“O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que lamentam, muito curto para os que festejam, mas, para os que amam, o tempo é eterno”. (Henry Van Dyke)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Teto

Paciente internado na UTI já há alguns dias, confuso, desorientado tempo-espaço, oscilando entre estados de agitação e tranquilidade, despertar e sonolência. Na presença do familiar ou equipe mais comunicativo.

Afim de auxiliar em sua interação com o ambiente, me propus a disponibilizar uma TV em seu leito. Perguntei-lhe se gostaria, e parecendo alheio ao meu questionamento, respondeu-me que aguardava, naquele momento, os convidados para o culto que tinha organizado na sua casa.

Investida na tarefa de oferecer a TV a ele, pus-me a organizar a logística de tudo! Dessa vez a dificuldade não estava no fato de achar um aparelho disponível (afinal, nos viramos para dividir 5 a 6 tv’s para 40 leitos), mas sim liga-lo.

Neste box em específico, a tomada está instalada no teto e quem me conhece com certeza já reparou nos meus 1,53m de altura. Mas não importa...

Empoderada, sentindo-me suficiente, prestativa, carreguei a mesinha e a TV até o box, peguei uma escada de 02 degraus (aquela para ajudar o paciente a acessar a cama), escalei-a corajosamente para encaixar a tomada, até que aquele paciente, confuso, alheio, desorientado, em alto e bom som vociferou:

- Ôoooooh Psicóloga, cuidado com essa escada! Quem foi que disse que você tem tamanho para alcançar essa tomada no teto??? Ôoooooh Enfermeira, tira ela dali!

Bem... depois disso, coube a mim olhar languidamente para os técnicos, médica e enfermeira, descer da escada, pedir ajuda para ligar a TV e evoluir no prontuário que quem se encontrava desorientado, perdido no tempo-espaço não era mais o paciente!

sábado, 12 de novembro de 2016

De que?


Ele tem sede da cachaça que ele mesmo produzia.
Ela, da sede que ele sentia.
Ele tem fome do frango com quiabo que ela fazia.
Ela, da fome que ele sentia.
Ele sente falta do chuveiro de casa
Ela, da época que ele sozinho se banhava.
Ele tem saudades dos 9 filhos que com ela cuidava.
Ela, de tê-lo novamente como companhia em casa.
A história dessa parceria vai se encaminhando para o fim, não sem antes mobilizar a mim e meus colegas de trabalho, e mansamente, nos perguntar, como que parafraseando aqueles versos dos titãs:
Você tem fome de que? Tem sede de que? Quer o que? E, sobretudo, reclama do quê...

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Roda com fim?


“ Até a notícia do médico, eu achava que a vida era um Jogo e que se tratava de ganhar ou perder. Pego de surpresa, me dou conta agora de que não existe a melhor jogada, porque na verdade, nem competição existe.

E se ela não é um jogo, é uma roda..., mas, vem cá, existe roda com fim? Deixa eu pensar... vai ficar aí em silêncio, olhando para mim?!

E agora (por que só agora?) vêm tantas perguntas na minha cachola?

Ah... deixa eu pensar sozinho, mas volta amanhã cedinho, o homem que nunca chora, já chora, e, isso é coisa nova pra mim. ”

----
Paciente cardiopata, após saber no boletim médico, do seu prognóstico reservado.

terça-feira, 10 de maio de 2016

O que Sobra da morte...


A morte nunca passa desapercebida, nem mesmo para aqueles que com ela lidam, diariamente. Além do barulho que faz quando chega no horário do expediente, mantém-se ecoando em nossos ouvidos, mais muitas horas depois.

Há pouco, parei para pensar no fazer do psicólogo hospitalar com a morte. Melhor, parei para pensar no meu fazer com a morte.  Virando e desvirando-me, conclui que o meu trabalho não é com a morte, mas com o que sobra dela.  

Me incomodou o vocábulo sobra, e como ando interessada na origem das palavras, fui atrás de seu significado. Descobri que o verbo Sobrar, deriva-se do latim Sobejar, que num português arcaico tinha o mesmo sentido de: superar, exceder, ir além dos limites e da belíssima conceituação: “existir, permanecendo-se ainda disponível”.

É isso então ... é mesmo com o que Sobra da morte que trabalho.

Para chegar a conclusão desse exercício que eu mesmo me impus, lancei o questionamento a algumas companheiras de trabalho. E numa conjunção de pensamentos, outras reflexões apareceram.

Trabalhamos com o que sobra da morte e com o que se inicia depois dela. Após o fechar das cortinas fica-nos a missão de ajudar quem sobreviveu, a querer descobrir o que se pode começar depois do fim...